Este Blog conterá a história de minha família, bem como narrações de fatos pitorescos e interessantes ocorridos pelas gerações. Famílias: Addeu e Miorin (famílias ascendentes: Addeo, Naddeo, Nadeu, Sabbeta, Corsini, Bacete, Doratiotto, Visentin, Gaeta, e outras). Acima estão as montanhas de pedras brancas dolomíticas. Maravilha do norte da Itália. Se quiser falar comigo, abaixo das postagens, clique em comentário e deixe sua mensagem.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Os dois extremos: a bisavó e a bisneta

Odete Bonato Colombo (descendente da Família Addeu) e sua graciosa neta (Isadora Simões Bovani). A importância da Família Colombo na vida da Família Addeu merece uma postagem especial, eis que é rica em fatos e detalhes de grande importância (oportunamente falarei sobre isso).

A família Addeu tem muitas histórias para contar. Difícil reunir todas numa só postagem. Por isso pretendo fazer aos poucos, postando as histórias por partes.

Aqui vai uma parte da história:

Francisco Addeu era casado com Maria Baptista Fiorilla Addeu e tiveram dois filhos. Ela ficou viúva prematuramente e perdeu também um dos filhos muito jovem, vítima de uma patada de cavalo enquanto ajudava a mãe, no trabalho. Isso fez com que a Viúva Maria Baptista (minha trisavó) se apegasse demasiadamente ao seu único filho sobrevivente: Paschoal Addeu (meu bisavô), tratando-o de forma muito especial, pois temia que o mesmo pudesse acontecer a ele.

Vindos da província italiana de Salerno, na Região da Campânia, cuja capital é Nápoles, se estabeleceram no Brasil, no Bairro da Mooca, na Capital de São Paulo. Diferentemente de muitos imigrantes, esse ramo da família Addeu não foi trabalhar na lavoura e nas fazendas, mas se aglutinou na região urbana, trabalhando nas cidades. A cultura italiana, dessa forma, estava também reunida nos bairros urbanos da nossa cidade de São Paulo.

Maria Baptista Fiorella Addeu, era uma trabalhadora incansável. Era também muito esperta para negócios vivendo do comércio, na Mooca. O Conde Matarazzo, com quem ela comercializava produtos, falava sempre que “era melhor negociar com 20 homens do que com a Maria Baptista”, visto que ela era muito boa para negócios e não perdia o preço. Com isso ela acabou comprando uma vila de casas na Rua Borges de Figueiredo (Bairro da Mooca – Capital de São Paulo).

Com o seu trabalho, mais os alugueis que recebia das casas da vila, vivia sossegadamente. Seu filho Paschoal (meu bisavô paterno) jamais precisou trabalhar enquanto esteve solteiro, vivendo das rendas de sua Mamarella (forma carinhosa e italiana de chamar a mãe). Mesmo porque a mamarella, não o deixava trabalhar porque tinha medo de perdê-lo de acidente, como aconteceu com o irmão. 

No entanto, nem sempre a juventude permanece para sempre. E ao completar a maioridade, Paschoal conheceu uma imigrante italiana muito bonita, Renata Sabetta, e com ela se casou. Na época, casar-se sem estar trabalhando era uma anormalidade, mas assim ocorreu. Sua vida de casado foi um episódio a parte e irei contar numa outra oportunidade, eis que foi repleta de fatos interessantes também. Tiveram dezesseis filhos sendo a primeira, Maria Baptista Addeu que depois se casou com José Augusto Bonato, e estes por sua vez tiveram uma única filha chamada ODETE (a simpática prima do meu pai, nas fotos acima. Esta última foto acima mostra Odete com seus pais).

Odete casou-se com Orlando Colombo, passando a ser chamada de Odete Bonato Colombo e teve três filhos: Maria Angela, Augusto Pedro e Carlos Alberto. Como toda família, tiveram que enfrentar os problemas que surgiram pelo caminho, porém os seus três filhos estudaram em ótimos colégios, tiveram formação universitária, e uma formação e educação ilibadas, sendo dignos de elogios.


Deixo minha prima Maria Angela Colombo Simões, narrar com suas próprias palavras a interessante história da família:

Odete foi a primeira neta dos nonos Paschoal e Renata

Filha única da filha mais velha do casal, Maria Baptista e do bem sucedido guarda-livros Augusto José Bonato, Odete, nascida em 25 de outubro de 1926, permaneceu como única criança da família, por quase dez anos, sendo muito mimada pelos seus pais, avós e tios. Sua escolaridade foi grande para a época e para nossa família. Estudou até o segundo ano científico, no Colégio São José, de onde teve de sair por problemas financeiros e depois estudou bordado no Colégio Santa Maria, onde bordou todo seu enxoval, o que era costume entre as moças prendadas da época. Estudou também piano, chegando a dar aulas deste instrumento para ajudar no orçamento da casa. 

(Notícia ao lado foi publicada no jornal: “Correio Paulistano” de 23 de novembro de 1939)

Aos treze anos, perde o pai, vítima de enfarto e volta a morar com a família, na vila da Rua Borges de Figueredo, na Moóca, de propriedade de seus pais, até casar-se em 29 de maio de 1950, com Orlando Colombo, com quem viveu por 57 anos e teve três filhos: Maria Angela, Augusto Pedro e Carlos Alberto e 6 netos: Daniela, Guto e Felipe do casamento de Maria Angela com Fausto; Camila do casamento de Augusto com Jane e Marina e Manuela filhas do Carlinhos com Patrícia.

Conta minha mãe que durante todo noivado dela com meu pai (Orlando Colombo), ela passou tocando, no piano, trechos de óperas que ele, cantava, embora fosse desafinado. Mas isso passava despercebido pela família que o incentivava, principalmente minha avó que era sua fã ardorosa.

A Vila na Rua Borges de Figueiredo era inicialmente herança do nono Paschoal. Por problemas financeiros, ela teve de ser hipotecada e para que a família não ficasse sem teto, meu avô Augusto José Bonato comprou a propriedade, permitindo que a família continuasse morando lá.

Odete e Orlando, sempre mantiveram contacto com a família e quando os filhos éramos pequenos, foram responsáveis, junto com o meu tio-avô Armando Addeu, pelas reuniões de natal e fim de ano de toda família.

Sempre recebíamos, em nossa casa da Mooca, visitas constantes dos primos Euclydes Cláudio Addeu, Milton Balboni e Rodolfo Bastiglia e dos tios-avós: Luiza Addeu, Romualdo Addeu, João Addeu, Zilda Gomes Addeu e Isolina Bastiglia.

Entretanto de todos os tios-avós, com quem mais convivemos foi com a família da tia-avó Carmen (Carmela Addeo Gonzalez), que segundo minha mãe, substituiu minha avó na vida dela e com quem tínhamos uma grande ligação e da família do tio-avô Armando Addeu, de quem éramos vizinhos e que se sentiu responsável por ela desde a morte prematura do pai e que segundo palavras dela “a acompanhou até o casamento”.

Das primas, embora ela tivesse uma ligação quase que fraterna, com a Dionea (filha da tia-avó “Carmen” Carmela Addeo Gonzalez), a preferida sempre foi sem dúvida, a Rosa Maria (filha do tio-avô Armando Addeu), de quem é também madrinha de batismo e de casamento.

Dos primos, o queridinho foi sempre o Augustinho (Augusto, filho do tio- avô Armando Addeu), de quem foi também madrinha de casamento e comadre, por ter batizado sua segunda filha, a Cristiane.

Muito rígida com a educação dos filhos, tinha entre nós o “doce” apelido de “come-gente”!

Tínhamos uma casa de praia, no litoral de São Paulo, que durante anos foi palco de felizes recordações. Na mesma praia tinham casa também a Dionea (filha da tia-avó Carmela) e o tio-avô Armando Addeu, o que aumentava nossa convivência, pois estávamos sempre juntos, tanto nos feriados, quanto nas férias.

Outra característica: suas amizades sempre foram antigas e duradouras. Suas melhores amigas são a amiga de infância a tia Nininha e a tia Jandira, amiga de quase 60 anos, com as quais mantém contacto até hoje.

Gostaria de salientar a importância de meus pais na formação médica do meu irmão Augusto, pois é muito difícil para os pais sustentarem um filho em uma faculdade de medicina, arcando com a mensalidade, custeando também a moradia, e principalmente o lado emocional, pois ele saiu de casa com apenas 18 anos.

Quanto ao Carlinhos – meu irmão caçula, meus pais simplesmente mudaram todo rumo da vida dele, através de um grande gesto de amor. Quem sabe a história da nossa família, sabe do que estou falando...

Quanto a mim, foi inegável o apoio dos meus pais na criação de meus filhos, dois deles com problemas gravíssimos de saúde. Se não fosse pela ajuda e pelo apoio de meus pais, eu teria sucumbido. Minha filha Daniela, hoje advogada, é casada com Fabio Bovani e tem uma filhinha linda chamada Isadora (foto acima)

Minha mãe Odete cuidou do meu pai, que nos últimos anos estava deprimido, com a saúde bastante debilitada e com a visão muito comprometida, até o ultimo dia de sua vida. Uma vez meu pai ficou internado por quase dois meses e minha mãe ficou cuidando dele a ponto de contrair uma baita anemia.

Outra vez, eles vieram para São Paulo e meu irmão Augusto Pedro foi buscá-los para jantar. Meu pai que tinha muita dificuldade de visão e se apoiava em tudo, apoiou-se na porta do carro. Nessa hora, minha mãe, distraída, bateu a porta e com isso arrancou a ponta do polegar dele.

Passaram-se uns dias... No dia do aniversário do meu pai, eles estavam conversando sobre tudo, e meu pai disse a ela: não posso me queixar da vida, criei e formei meus filhos e vivi tanto, que deu até tempo de você me arrancar um pedaço de dedo fora. Lembravam disso rindo.

Nos dez últimos anos da sua vida de casada, minha mãe foi morar em Valinhos (interior do Estado de São Paulo), permanecendo lá até quatro anos atrás, quando teve um problema sério de coração e decidimos que, embora ela fosse independente, por problemas de saúde, ela não deveria morar mais sozinha. Hoje, estamos muito contentes desfrutando de sua companhia.

Atualmente está com 88 anos, e é a sobrevivente mais velha do clã dos Addeu e embora diga que se sente um robô, pois usa óculos; aparelho auditivo; tem prótese dentaria sobre implante; estente e marca passo no coração, o importante é que ela está conosco e lúcida para aproveitar a companhia das pessoas que a amam.

NOTA DO BLOG: FELIZ ANIVERSÁRIO TIA ODETE! Obrigado minha prima Maria Angela, por me trazer tão comovente história.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Escrever a ponta do Iceberg

Quando algum escritor escreve sua história, certamente ali está somente a ponta do iceberg. O que quero dizer com isso? Todos conhecem um iceberg: um imenso bloco de gelo que fica flutuando nos mares gelados. O curioso é que apenas uma parcela dele emerge. Quando se vê, no mar, um iceberg, vemos apenas a ponta dele fora da água, 10% (dez por cento) de seu real tamanho. A maior parte dele está submerso, fora do alcance dos nossos olhos. É uma montanha de gelo, e só vemos sua ponta.

Assim também é o historiador que escreve e que conta suas histórias. Apenas uma parte da história aparece aos olhos dos leitores. O texto fica ali, para que todos leiam, mas as lembranças mais profundas, a grande situação de época de onde brotaram o fato narrado, as memórias, a descrição exata e colorida de uma época especial... tudo isso, se o escritor fosse externar, muitas vezes um simples artigo se transformaria num livro. Não é só isso. Muitas vezes o escritor oculta situações ou fatos que não pode tornar público, mas que faz parte de toda uma certa situação que só mesmo quem viveu isso é que pode saber.

Mesmo assim, quando o escritor é bom, ele consegue transportar o leitor para a época de onde surgiu o fato narrado, e lendo o leitor consegue entender coisas que não leu, sentindo tudo completamente como se fosse um sonho. Alguém leu um conto, entendeu o que leu e também entendeu para além do que foi escrito. E às vezes, em pensamentos, até viaja para a época ou situação do conto narrado. Realmente tem escritores que escrevem com as mãos, e outros que escrevem com o coração.

Por mais que eu escreva neste blog os vários fatinhos que ocorreram na minha família, jamais vou conseguir registra-los todos e com a riqueza de detalhes que merecem, porque são infindos, porque são também tão especiais. Torna-se difícil, muito difícil escrever trazendo-os do passado remoto ao presente com o mesmo sabor e riqueza de detalhes que tiveram outrora. Ouvir o que nossos avós e bisavós disseram, ao vivo, com o sabor histórico de sua vivência, o convívio com os mais antigos da família, é coisa que não tem como reproduzir com exata fidelidade de sentimento, e muita coisa acaba sendo deixada sem ser escrita... Quem viveu tudo isso, como eu vivi e muitos ainda de minha família também, sabe o quanto há de história para contar... e quanto há de verdade no que falo.

Mesmo com a falta de tempo que eu tenho, estou procurando ser muito fiel aos fatos e fatinhos familiares. Inicialmente pensei que esta história transformada em livro teriam 5 (cinco) volumes: O PRIMEIRO VOLUME com breve história de São Paulo e do Bairro da Mooca (para onde vieram meus ancestrais), falando no decorrer dos tempos modernos sobre meus pais e seus filhos; O SEGUNDO VOLUME com a história do lado paterno de meu pai; O TERCEIRO VOLUME com a história do lado materno do meu pai; O QUARTO VOLUME com a história do lado paterno de minha mãe; e, finalmente o QUINTO VOLUME com a história do lado materno de minha mãe.

Porém aconteceram três coisas:

A primeira, é que com meus estudos históricos sobre a família e as cidades, descobri tantos fatos novos com os quais fiquei admirado pela qualidade de texto e quantidade de coisas interessantes e que ajudariam a criar o ambiente antigo.

A segunda, é que depois que comecei a fazer o blog da família e tornar alguns fatos públicos, começaram a aparecer parentes distantes que eu não tinha contato e que me enviaram tantas outras coisas sobre nossa família que, me impressionou também pela quantidade de fatos, histórias familiares e documentos raros. Vieram de todos os ramos familiares do Brasil e da Itália.

A terceira, é que os meus parentes mais próximos, que antes me enviavam algum documento e alguma história que conheciam, ao ler o blog (atualmente com mais de 20.000 visitantes pelo mundo todo), começaram a enviar muitas novas contribuições, riquíssimas em detalhes e narrando situações que eles presenciaram e eu não conhecia. E não bastasse isso, amigos da família também enviaram noticias, fatos e histórias que enriqueceram de forma especial o livro.

O que fazer com tão excelente material, porém com tão pouca falta de tempo para organizar, classificar, separar, escrever corrigir, etc?

Dessa forma eu pensei: “Tem que continuar sendo cinco volumes, vou ter que condensar os textos. Mas com certeza serão volumes grossos...” Muitas fotos, muitos documentos, alguns desenhos, depoimentos...

Como agradecer a tanta gente? Como agradecer a imensa alegria?  Difícil responder. Com certeza Deus recompensará a todos e dará a cada um, em especial, muita saúde, felicidades, e todas as graças e bênçãos reservadas aos mais amados por Ele.


Foto retirada da internet, desconheço o autor

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Mooca e seus grandes nomes

Atribui-se a data de descobrimento do Brasil, a data de chegada da frota comandada por Pedro Álvares Cabral, aos 22 de abril de 1500.

A cidade de São Paulo, surgiu como missão jesuítica, em 25 de janeiro de 1554, graças ao trabalho incansável do Padre Manoel da Nóbrega e do Pe. José de Anchieta.

No dia 17 de agosto de 1556,começava o marco de uma grande história, era o surgimento da Moóca.

Como se pode ver, a história da Moóca, acompanhou a história de São Paulo e do Brasil.

Descendo do Planalto do Piratininga (primeiro nome de São Paulo), havia campos, florestas e indígenas que conheciam ou já tinham ouvido falar do Pe. José de Anchieta. Vi pinturas daquela região, e posso dizer que aquilo era simplesmente magnífico. Não era um matagal selvagem. Havia um clima ameno onde rios e vegetação se harmonizavam. Que lugar era esse? Futuramente chamou-se Moóca. Muitos falam sobre os vários significados da palavra indígena “Moóca”. Inclusive relacionadas a construção de casas. Mas na língua indígena, “oca” quer dizer “casa”, onde os índios moram. Quando uma “oca” é grande e bem feita é uma “Maior Oca” ou uma “Mor Oca” ou ainda abreviando, uma “Mó-Oca”. Não seria exata esta tradução de Moóca?

A palavra “mor” hoje em dia muito pouco usada, era muito utilizada há alguns anos atrás. O altar principal de uma igreja, era o maior dos outros altares laterais, por isso era chamado de “Altar-Mór”.

Quando uma Oca era mal construída, ou construída de qualquer jeito, era uma "Mal-Oca", ou "maloca".

Ali naquele lugar, no ano de 1556 já haviam moradores brancos, encantados pela beleza da região, construindo suas primeiras casas. As tribos indígenas que havia naquela região eram Tupis-Guaranis, curiosos, observando seus novos vizinhos. Neste mesmo ano, houve um comunicado na governança de Santo André da Borda do Campo, sobre a necessidade da construção de uma ponte sobre o Rio Tameteai (hoje, Tamanduateí); nesse comunicado havia uma menção sobre a “Mó-Oca”.

Posteriormente, no ano de 1605, já havia grandes propriedades de terras naquela região, e uma delas era o Arraial de Nicolau Barreto, onde o Bandeirante Brás Cubas construiu a capela de Santo Antônio, mais tarde transferida para a Praça do Patriarca.

No ano de 1868, houve a instalação na Moóca, da Ferrovia São Paulo Railway (Estrada de Ferro Santos Jundiaí).

Assim, num breve resumo, essa é a Moóca. A Moóca cuja história remonta o início da história do Brasil, o início da história da Cidade de São Paulo... 

A Moóca é um bairro tipicamente italiano na Capital de São Paulo. Mantém as tradições italianas, bem como criou um sotaque próprio, meio “italianado” denominado sotaque mooquense. Um bairro em grande ascensão, muito valorizado e cada vez crescendo mais, sem se esquecer de suas tradições.

Por falar em história, tenho uma boa novidade. Chegou em minhas mãos um livro espetacular: “ELES CHEGARAM... A SAGA DOS BARBULHO”, que narra a história da família Barbulho, da imigração italiana, contando também histórias da nossa São Paulo antiga. Confesso que é um livro de leitura obrigatória, imperdível. Seu autor é Euclydes Barbulho, um nome para ser lembrado na história da Moóca.

O futuro que une tradições. Foi através de minha prima Cristiane que acabei conhecendo esse grande amigo: Euclydes Barbulho. Esse nome não me era estranho, pois tanto meu avo João Addeu, quanto meu pai que também chamava-se Euclydes, já falavam nesse nome. Eu, que ainda era um jovem, apenas ouvia os dois conversarem, sem saber ao certo sobre o que seria. Anos mais tarde, o próprio Euclydes Barbulho me disse que havia trabalhado com meu avô João Addeu, na empresa Semer. Na Moóca as coisas são assim, as amizades se transmitem de pai para filho.

Euclydes Barbulho é Administrador de Empresas, palestrante, professor, e muito especialmente um grande escritor, entre tantos outros títulos que tem. Escreveu vários livros. Minha homenagem a esse grande amigo.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Provérbios em Talian - o dialeto Vêneto-Brasileiro

No período entre os anos de 1876-1920, vieram da Região do vêneto 365.710 imigrantes. Da Campânia, 166.080; da Calábria, 113.155; da Lombardia, 105.973; do Abruzzo-Molise, 93.020; de Toscana, 81.056; de Emilia-Romagna, 59.877; da Basilicata, 52.888; da Sicília, 44.390; do Piemonte, 40.336; da Puglia, 34.833; do Marche, 25.074; do Lacio, 15.982; da Úmbria, 11.818; da Ligúria, 9.328 e da Sardenha, 6.113.

Como se vê a região da Itália de onde vieram mais imigrantes, foi a Região do Vêneto. Eles vieram e se estabeleceram no sudeste e sul do Brasil, com seu dialeto próprio, que se manteve durante os anos.

O vêneto falado no sul do Brasil é arcaico quando comparado ao vêneto falado atualmente na Itália, pois é semelhante ao usado no século XIX. Ademais, com o advento da rádio e da televisão, começou uma forte interferência da língua portuguesa no vêneto falado pelos imigrantes no Brasil. Em decorrência, o vêneto brasileiro evoluiu de forma diferente da variedade falada na Itália, uma vez que incorporou itens lexicais do português e se manteve ligado à maneira como era falado no século XIX. Assim, usa-se o termo talian para diferenciar o vêneto falado no Brasil do dialeto vêneto hoje usado na Itália.

O talian é uma variante brasileira da língua vêneta, da mesma forma que o Riograndenser Hunsrückisch é um dialeto falado por descendentes de alemães no Sul do Brasil. O talian não é considerado uma língua estrangeira no Brasil, mas sim uma língua nacional brasileira, porém, sem status de língua oficial.

Hoje eu trago alguns provérbios no dialeto de Vêneto, aqui no Brasil conhecido como “Talian”:

"Can vècio no'l ghe sbaia a la luna" - Cão velho não late pra lua

"Come noantri no ghen'è altri" - Como nós, não há nenhum outro

"Come San Tomaso, no'l ghe crede se no'l ghe mete el naso" - É como São Tomé, não acredita se não mete o nariz

"Chi fà de so testa, paga de so borsa" - Quem faz da sua cabeça, paga do seu bolso

"A caval de un porco grasso" - A cavalo de um porco gordo (Sem nenhuma segurança)
"Amor sensa barufa el fa la mufa" - Amor sem briga, da dor de barriga

"A paroni e mati no se ghe comanda mia." - A donos e loucos não se pode dar ordens.

"Ari che semo apari." - Opa que estamos de acordo..!

"Beati i ùltimi se i primi i ga creansa." - Benditos os últimos se os primeiros são educados.

"Brina su el pantan , piova inco o doman." - Geada na lama, chuva na cama.

"Bruta come el temporal." - Feia como a tormenta.

"Cativa come na brespa." - Braba como uma vespa.

"Chi dà, se smentegá; chi riceve se ricorda." - Quem dá, esquece; quem recebe se lembra.

"Chi è stato rè, el sarà sempre maestà." - Quem foi rei, será sempre majestade.

"Chi fà el prim paga el vin." - Quem faz o primeiro, paga o vinho.

"Chi fà dopo, paga tropo (pròpio)" - Quem faz depois, paga para os dois. (de fato)

"Chi ga prèssia, magna crudo." - Quem tem pressa, come cru.

"Chi ga mia testa, ga gambe." - Quem não tem cabeça, tem pernas.

"Chi guadagna ga sempre rason." - Quem ganha tem sempre razão.

"Chi ride, vive depì." - Quem ri, vive mais.

"Chi sparagna, el gato magna." - Quem economiza, o gato come.

"Chi va drio ai altri, no riva mai prima." - Quem segue os outros, nunca chega primeiro.

"Ciari come le mosche bianche." - Raros como as moscas brancas.

"Ciucia fighi." - Chupa figos..! (Explorador, vigarista.)

"Ciuco come na porta". - Bêbado que nem uma porta.

"Coion el ozel chel ga s-chifo del so nido". - Bobo o passarinho que despreza o próprio ninho.

"Co l’àqua la toca el col se impara nodar". - Quando a água chega ao pescoço aprende-se a nadar.

"Col ghe riva, nol dòpera mia la scala". - Quando alcança não usa escada.

"Come San Tomaso; el crede s’el ghe mete el naso". - Como São Tomaz; acredita só se mete o nariz.

"Come valo el cuor..? – A colpi, a colpi". - Como vai o coração..? – A golpes... A golpes...!

"Cossì, cossì, come na dona sensa el marit." - Assim, assim, como uma mulher sem o marido.

"Contar busie l’è dir el contràrio de quel che se pensa". - Mentir é dizer o contrário do que se pensa.

"De note, un soco el par un orso". - À noite, um toco assemelha-se a um urso.

"De tanto ndar al posso el baldo el perde el mànego". - De tanto ir ao poço o balde perde o cabo.

"Disi sempre che la è cota". - Diga sempre que já está cozida. (Concordar é melhor que contestar)

"Dona bruta, rispeto a casa". - Mulher feia, respeito em casa.

"Dopo del oio, tuto sbrìssia". - Depois da graxa, tudo desliza.

"Drito come un ciodo". - Reto como um prego.

"El balordo el perde el capel e el scrive el so nome". - O maluco perde o chapéu e escreve seu nome.

"El can de tanti paroni el more da fame". - O cão de muitos donos morre de fome.

"El formàio gratà , el fa spissa ai zenoci". - O queijo ralado faz comichão nos joelhos.

"El ga na sorte come un can in cesa". - Tem tanta sorte como um cachorro na igreja. (Só leva coices)

"El gato broà, el ga paura, fin de àqua freda". - Gato escaldado tem medo de água fria.

"El ghe trà a la bocia e el ciapa el bocin". - Atira na bochas e acerta o balim.

"El ghe piomba i vermi". - Leva-o à destruição.

"El la capisse sempre a la reversa". - Compreende sempre às avessas.

"El malan el porta el san". - O doente conduz o sadio.

"El mèio dea festa l’è pareciarla". - O melhor da festa é prepará-la.

"El menestro el ga perso el mànego". - A concha perdeu o cabo. (Um chefe perdeu autoridade)

"El pi busier el lo cata". - O mais mentiroso o encontra (Um perdido..)

"El piande el mort par ciavar el vivo". - Chora o defunto para lograr o sobrevivente.

"El pianta aio par catar sù séole". - Planta alho para colher cebolas.

"El primo di che se va in campagna no se fa mia formàio". - O primeiro dia que se vai ao campo não se fabrica queijo.

"El pi grando inferno in tera , la è na fameia in guera". - O maior inferno na terra é uma família em guerra.

"El scrive come un dotor". - Escreve como um doutor. (Ilegível)

"El va farse benedir". - Vai ao paraíso. (Mais candidamente)

"El va indrio come i gàmbari". - Retrocede como os caranguejos.

"El vol sconder el sol col tamiso". (crivel) - Quer tapar o sol com a peneira.

"Fàcile come el ovo de Colombo". - Fácil como o ovo de Colombo.

"Fate furbo..!" - Acorda..!

"Fin che la dura, mai paùra". - Até que é robusto, nada de susto.

"Fumana bassa, la piova la passa". - Cerração baixa, sol que racha.

"Fumana u el monte, piova tea fronte". - Cerração no morro, chuva no coro.

"Furbo come la volpe". - Esperto como a raposa.

"Furbo come un merlo". - Esperto como um melro. (Dorminhoco)

"Ghe tiro a chi no vedo e copo chi no credo". - Atiro no que vejo e acerto no que não creio.

"Giusto come un deo tel naso". - Exato como um dedo no nariz.

"Giusto come trè e trè i fa sèi". - Exato como "três e três são seis.”

"Giusto come un mostacio". - Certo como o fio de bigode.

"Gras come un porsel". - Gordo que nem um porco.

"Guadagnà in festa, fora par la finestra". - Ganho na festa, fora pela janela. (Ganho fácil, gasto rápido)

"Indormenso col can, dismìssio co i puldi". - Adormeço com o cão, acordo com as pulgas.

"In driocul come un gàmbaro". - De ré, como um caranguejo.

"Inocente come un gal de sete ani". - Inocente como um galo de sete anos.

"Intrigà morir". - Lutando para morrer.

"I se vol un ben da can". - Se prezam que nem cachorros.

"I soldi i fa balar anca el orso". - O dinheiro faz dançar até os ursos.

"I tosati e i colombi i sporca le case". - As crianças e os pombos sujam as casas. (Não guardam segredo)

"La alegria la spanta la malatia". - A alegria espanta a doença.

"La cavra che sbèrega la perde el bocon". - A cabra que berra perde o bocado.

"La morte dea piégora, la salute dei can". - A morte da ovelha é a saúde do cão.

"La mussa e i trenta soldi". - A mula e os trinta dinheiros (Para quem quer tudo).

"La ociosità la è la mama de tuti i vìssii". - A ociosidade é a mãe de todos os vícios.

"La sìmia che se grata, la ciama i balini". - Macaco que se coça quer chumbo.

"La soméia un pèrsego maduro". - Parece um pêssego maduro. (A moça muito bonita.)

"Le busie le ga le gambe curte". - As mentiras têm as pernas curtas.

"L'è come el diàolo ntel àqua santa". - É como o diabo na água benta.

"L'è pi indrio che le patate del porco". - É mais atrasado que batata de porco.

"L'è sordo come na campana". - É surdo como um sino.

"L'è un descanta baùchi". - É um desperta dorminhocos.

"Maledeta la prèssia". - Maldita a pressa.

"Magna quel che te gh’è e tasi quel che te sè". - Coma o que tiveres e cala o que souberes.

"Magna panoce..!" - Comedor de milho ..! (Para chamá-lo de animal)

"Magnemo polenta e pessi ntel rio". - Comemos polenta e peixes no rio.

"Na disgràssia no la vien mai sola". - Uma desgraça nunca vem sozinha.

"Na bronsa querta". - Uma brasa coberta. (Imprevisível.)

"Nissun l'è tanto grando che nol possa imparar; nissun l'è tanto pìcolo che nol". - Ninguém é tão grande que não possa aprender; ninguém é tão pequeno que não possa ensinar.

"Nol ghe vede un palmo davanti el naso.." - Não enxerga um palmo diante do nariz.

"Ntel perìcolo lè mèio starghe distante, che saverla longa". - No perigo é melhor ausência de corpo do que presença de espírito.

"O magna sto osso o salta sto fosso". - Ou come este osso ou pula este poço.

"Ogni busa la ga la so scusa". - Toda a cova tem sua desculpa.

"Ogni fuso el ga el so buso". - Cada barbante tem sua passagem.

"Par ndar in Paradiso bisogna diventar inocenti come i tosatèi". - Para ir ao céu é preciso tornar-se inocente como as crianças.

"Pimpian se va a lontan, forte se va a la morte". - Devagar se vai ao longe; forte se vai à morte.

"Piova de inverno, deventa un inferno". - Chuva no inverno, vira um inferno.

"Piova de istà, beati chi la ga". - Chuva de verão, benditos os que a terão.

"Piove a sece roverse". - Chove aos baldes.

"Prima San Piero, dopo i so Apòstoli". - Primeiro São Pedro, depois os outros apóstolos.

"Rosso come un gàmbaro tea padela". - Vermelho como um caranguejo na frigideira.

"Rosso come un garòfolo". - Vermelho como um cravo.

"Scarpe nove fa mal ai pié". - Sapato novo machuca o pé.

"Se Dio vol e el toro el me assa". - Se Deus quiser e o touro permitir.

"Sgionfo come un rospo". - Estufado como um sapo.

"Va farte benedir..!" - Vá fazer-te abençoado..!

"Va piantar patate..!" - Vá plantar batatas..!

Quem quiser saber mais sobre o Talian:

Fonte dos provérbios em Talian:

Fonte da foto: Capa da Revista Talian - Brasil

sábado, 15 de junho de 2013

O Salvo Conduto e minha bisavó Ângela Doratiotto Miorin

Depois que passaram a morar no Bairro da Moóca (Capital de São Paulo), meus bisavós Antonio Miorin e Angela Doratiotto Miorin viveram tranquilamente, seus filhos arranjaram emprego e a vida prosseguia normalmente. Porém um de seus filhos havia ficado na cidade de Campinas: o filho que permanecera solteiro e que trabalhava numa leiteria: Luiz Miorin.

Luiz Miorin, vinha sempre visitar seus pais (meus bisavós) no bairro da Mooca. Há muita história para contar sobre ele, algum dia vou fazer uma postagem só sobre os filhos de meus bisavós maternos.

Porém a situação política mundial agravava e os povos não mais se entendiam. Depois da Primeira Grande Guerra, veio a Segunda Guerra Mundial. Os empresários italianos tinham que transferir a sua empresa para gente de confiança que tinha nacionalidade brasileira. Era proibida a livre circulação de estrangeiros em território nacional. Para viajar de uma localidade para outra era preciso estar acompanhado de um “salvo-conduto”.

Minha bisavó, Angela Doratiotto Miorin, certamente preocupada com as restrições de livre circulação em razão da guerra, como seu filho não vinha mais visita-la, e ainda preocupada porque seu filho Luiz Miorin tinha um certo problema de saúde, resolveu então ela mesma ir para Campinas visitá-lo na Leiteria Sant'Ana. Mas não era fácil pegar o trem e partir livremente, a policia poderia causar algum embaraço, pois minha bisavó era italiana. Foi assim que ela foi obrigada a solicitar das autoridades um documento chamado "Salvo-Conduto" que lhe permitia viajar sem qualquer problema. Ela deveria pegar o trem rumo à cidade de Campinas para ir à Leiteria Sant’Ana, onde trabalhava seu filho Luiz Miorin. Com o "Salvo-Conduto" cujo documento está em foto nesta postagem, ela poderia ir de trem.

Então foi solicitado perante às autoridades brasileiras a emissão de um salvo-conduto, para viajar de trem até Campinas, na Leiteria Sant’Ana.

Uma observação importante é que no salvo conduto, constou a data de nascimento de minha bisavó como sendo 19/07/1874, sendo que na verdade sua data de nascimento correta é 15 de janeiro de 1876, conforme consta no seu documento de identidade.


O SALVO CONDUTO, era válido para uma viagem com destino até Campinas, através de trem (Via Férrea), cujo endereço final era: Leiteria Sant’Ana – motivo da viagem: visita. Era válido até 09/03/1944.

O estrangeiro, portador da presente caderneta “salvo-conduto”, só poderá obter o “visto” afim de viajar para localidade determinada e com prazo certo.

Chegando ao destino, deverá apresentar-se à autoridade policial da localidade, à qual exibirá esta caderneta, para as devidas anotações.

Ao retirar-se da localidade, deverá obter novo “visto” para a localidade que de destina.

Os “vistos” dos Salvos-Condutos só serão válidos para uma viagem.

O portador da presente caderneta fica obrigado por ocasião do embarque ou durante a viagem, a exibir, quando solicitado, juntamente com esta, a prova de nacionalidade.

SOBRE O SALVO CONDUTO:

Salvo-conduto é um documento emitido por autoridades de um Estado que permite a seu portador transitar por um determinado território. O trânsito pode ocorrer de forma livre ou sob escolta policial ou militar.

Os salvo-condutos são emitidos principalmente em tempos de guerra para cidadãos que potencialmente possam ser capturados sob alegação de diversos motivos.

No Brasil, os salvo-condutos foram emitidos em larga escala durante a Segunda Guerra Mundial aos milhares de imigrantes italianos, alemães e japoneses. O salvo-conduto era necessário para que os imigrantes pudessem se deslocar dentro do Brasil, que havia declarado guerra ao Eixo. Era também muito comum que fossem emitidos salvo-condutos também aos filhos destes imigrantes já nascidos no Brasil, mas que pouco falavam a língua portuguesa por viverem dentro das colônias sem contato com as grandes cidades.

Atualmente, o salvo-conduto é um privilégio diplomático.

Este também é uma ação constitucional, o "Habeas Corpus". Ao garantir a proteção de liberdades individuais de locomoção quando esta se encontra indevidamente em vias de violação. Sendo mera ameaça de violação do direito de ir e vir o Habeas Corpus é obtido por meio de um 'salvo-conduto'.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Salvo-conduto

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Famílias Miorin e Doratiotto - uma amizade eterna

Minha bisavó materna, Ângela Doratiotto, havia chegado como imigrante no Brasil, no ano anterior ao de sua própria família. Segundo ela mesma dizia, viera ao Brasil com a família de Sperandio Miorin. 

Sua nora, Rosa Nadeu (minha avó materna) comentava comigo que não sabia se isso era verdade. Mas, anos depois, estudando a história da imigração, pude constatar que ela realmente não veio para o Brasil com seus pais Giuseppe Doratiotto e Santa Basetta (que chegaram no Brasil, desembarcando no porto da cidade de Santos, com o Vapor Solferino, em 19/12/1892, com seus demais filhos).

Sperandio Miorin, nascido no ano de 1858, morava em Treviso com sua mulher Ângela Padovese (casados em 18/04/1887). Juntamente com sua família, trouxeram minha bisavó (Ângela Doratiotto), para o Brasil alguns meses antes de seus pais. Ela ainda era uma menina. Chegaram ao porto de Santos (Estado de São Paulo – Brasil), com o Vapor N. América em 11/09/1891.

Porque ela veio junto com Sperandio e não com sua família? A hipótese mais provável dos estudos, como tudo indica, leva a crer que minha bisavó Ângela Doratiotto, quando menina, trabalhava para Sperandio Miorin, fazendo serviços domésticos e cuidando dos filhos pequenos do casal: Luigi (3 anos de idade) e Fiorella (1 ano de idade). Ângela Doratiotto era ainda bem jovem (tinha uns 13 ou 14 anos), mas provavelmente queria ajudar no orçamento familiar de sua família que era modesta. Seu pai, Giuseppe Doratiotto (filho de Pasquale Doratiotto), era cozinheiro num mosteiro de frades ou seminário.

A Família Doratiotto, mais remotamente veio das regiões montanhosas do Norte da Itália. Acostumados a neve pesada e montanhas escarpadas, vales de ouro e rios de prata, pequenas casas cobertas de flores – como diz a música Trentina e do Alto Ádige. Montanhas de pedras brancas, confundindo o turista, se ainda é a Itália ou a trilha que leva ao Paraíso.

Pasquale Doratiotto (meu tetra-avô que nasceu no ano de 1811) tinha dois filhos: Giuseppe Doratiotto (nasceu em 1844) e Giovanni Doratiotto (nasceu em 1846). Todos nasceram e viviam na comune de Roncade (Província de Treviso, Região do Vêneto). Vieram para o Brasil como imigrantes, se estabelecendo na cidade de Itatiba – interior do Estado de São Paulo. Posteriormente a família se dividiu: os descendentes de Giovanni Doratiotto se mudaram para a cidade de Atibaia (interior de São Paulo) e ainda hoje lá se encontram de grande número. Os descendentes de Giuseppe Doratiotto, vieram para o bairro da Mooca – Capital de São Paulo.

Giuseppe Doratiotto (meu tri-avô materno), era casado com Santa Basetta. Tiveram vários filhos e filhas. Minha bisavó Ângela Doratiotto (filha de Giuseppe e Santa), nasceu na comune de Roncade, Província de Treviso, Região do Vêneto, aos 15/01/1876 (faleceu no ano de 1968, com 92 anos de idade, no bairro da Mooca – São Paulo, Brasil), e sempre contava que, em Treviso, ela morava numa praça muito bonita, onde no centro havia uma Igreja.

A minha tri-avó Santa Basetta, era descendente de família do norte da Itália também, da região da Lombardia, cuja capital é Milão. Fica perto da região do Piemonte (Torino, Vale d’Aosta, Genova), região dos grandes Alpes cobertos de Neve.

Mas tudo começou quando a família toda se estabeleceu, como imigrantes, na cidade de Itatiba – interior de São Paulo, sobre a qual falarei mais adiante.

ELO DE LIGAÇÃO DE AMIZADE ENTRE OS DORATIOTTO E OS MIORIN:

Qual era a ligação entre os Miorin e os Doratiotto? Ambas famílias moravam em Treviso – Região do Vêneto. Os Miorin moravam em sua grande maioria na Região de Friuli Venezia Giulia, na Província de Pordenone, comune de Cordenons. Mas muitos moravam na Província vizinha de Treviso, na Região do Vêneto. 

A família Miorin sempre foi muito amiga da família Doratiotto. A família de minha bisavó vivia muito modestamente, mas os Miorin, apesar de também sofrerem as enormes dificuldades da época, tinham terras e plantavam. Cultivavam e faziam cordas de fibras vegetais que vendiam para toda a região bem como para os países vizinhos, como a Áustria.

Meu bisavô Antonio Miorin, que no Brasil veio a casar-se com minha bisavó Ângela Doratiotto, freqüentava escola (na Itália e depois no Brasil), sabia ler e escrever italiano e português, era muito inteligente. Como líder natural, acostumado com os negócios de família, comandava os imigrantes nos trabalho nas fazendas. De madrugada, antes de raiar o sol, ia para adiante das vilas de casas e puxava a corda do sino que trouxera da Itália, para acordar seus irmãos imigrantes, e iniciar os trabalhos da fazenda.

A FAMÍLIA MIORIN NA ITÁLIA E DEPOIS EM ITATIBA:

Na Itália, Francesco Miorin (meu tetra-avô) era casado com Catterina Simonetti (que era da região de Treviso). Ambos tinham família muito numerosa. Mantinham sua propriedade rural, com plantações e especialmente de fibra vegetal para a produção de cordas que eles mesmo fabricavam. Cordas, na época eram muito utilizadas em vários setores.

Já escrevi em outras postagens, que recomendo a leitura, sobre a terrível crise que se abatia sobre a Europa no século das imigrações. Com a abertura dos portos aos imigrantes, a América atraiu para si milhares de europeus. Faziam propaganda das férteis terras brasileiras, do clima tropical, do futuro promissor aos desbravadores europeus... Era irresistível.

Um dos filhos de meu tetra-avô Francesco Miorin, chamava-se Francisco Miorin (nascido no ano de 1845 - meu tri-avô), era casado com Celeste Visentin (minha tri-avó). Casaram-se em Treviso, na Itália, aos 21/11/1871.

Reuniram a família, conversaram, e muitos decidiram vir para a “América” (como eles chamavam o Brasil). Decisão muito difícil na época, pois tinham bens e negócios. Mas a crise provocada por movimentos revolucionários abatia todos. Mudanças na Europa, queda de monarquias, movimento de unificação da Itália, tudo levava para um caos que parecia não ter fim. Depois de uma reunião em família, resolveram vender tudo, deixando apenas algumas coisas para os que ficavam em solo italiano. Meu tri-avô trouxe para o Brasil uma mala cheia de dinheiro austríaco (certamente fruto da venda da fazenda). Entre irmãos, cunhados, primos, filhos, esposas, etc, acredita-se que umas 90 pessoas dos Miorin daquela região, resolveram vir para “América”.

Pegaram seus filhos, primos, irmãos e partiram para a mais dolorosa despedida: a despedida de seus parentes que ficavam. Sabiam que jamais voltariam a se ver novamente, e então diziam: “Nos encontraremos no Paraíso”.

Trouxeram um sino de Igreja de tamanho médio, para que os acompanhasse nessa viagem rumo ao desconhecido. Um dos seus filhos que cuidava do sino era o meu bisavô Antonio Miorin (nascido em 29/05/1874). O sino que trouxeram de Vêneto, acompanhou meu bisavô durante toda sua vida na fazenda, em Itatiba. Na Casa do Imigrante (Bairro do Brás - Capital de São Paulo), consta nos registros dos livros, a existência do sino a que me refiro. Depois esse sino desapareceu.

Em Treviso, o acumulo de imigrantes era grande esperando o trem que iria levá-los até Gênova,  onde tinha o porto de navios. Chegando o trem, todos se abraçam, choram, pegam as crianças e os pesados baús e malas de viagem e colocam no trem. Depois amontoam-se nas janelas para dar o último adeus aos que ficavam. O trem atravessa todo o norte da Itália rumo à Gênova, onde havia o porto de navios. Antigamente, os navios que vinham para o Brasil eram a vela, e demoravam em torno de três meses para chegarem. Mas agora os navios já são à vapor e somente demoram um mês de viagem. Enfrentar o mar, era coisa de heróis. Ondas gigantes, ventos fortes, noites frias, chuvas... havia notícia de que um navio já tinha afundado matando todos os seus tripulantes. Antes de partir, havia uma missa. Rezavam, pediam bençãos, levavam objetos religiosos para trazerem ao Brasil. Consta na "trajetória dos imigrantes" que eles vinham nos navios rezando seus terços.

O Navio que transportaria a família Miorin era o Vapor Colombo. Balançando heroicamente sob as ondas do mar oceano, levavam consigo sua família, sua bagagem e sua fé católica.

O Vapor Colombo chegou no porto do Rio de Janeiro em 25/04/1892 e depois de mais oito dias, chegou ao porto de Santos em 03/05/1892, onde desembarcaram. Olharam o mar, a Itália já não estava mais ali. Olharam para o continente, as montanhas estavam ali. Subiram no trem e desembarcaram na Casa do Imigrante no bairro do Brás na Capital de São Paulo. De lá, depois de descansarem, dormirem e se alimentarem, foram encaminhados para as fazendas de café da cidade de Itatiba – interior de São Paulo, nas terras do Barão de Ibitinga.

Em Itatiba, trabalharam, mostraram sua cultura e foram admirados pelos coronéis e barões do café. Uma das fazendas que conserva até hoje a história da imigração italiana é a Fazenda Nossa Senhora da Conceição. Nossa família cultivou naquelas terras de Itatiba, uva e outras plantações típicas italianas, além de cuidar do café das fazendas. Das uvas nossa família fazia preciosos vinhos para consumo doméstico, bem como queijos de sabores inigualáveis. Antonio Miorin (meu bisavô), sabia fazer queijos.

Com o passar do tempo, os filhos foram crescendo e o pai Francesco Miorin acabou ficando velho, cego e viúvo. Os filhos, que aos poucos iam se casando e tendo outras obrigações, não tinham tempo de cuidar do pai viúvo Francesco Miorin. Quem conta essa história é meu tio-avô Pedro Miorin:

“Tendo se tornado viúvo, velho e cego, os filhos não podiam cuidar como deviam de seu pai. Então acharam por bem arranjar uma nova esposa para ele, que pudesse cuidar dele. Mas estava difícil, pois não encontravam ninguém que fosse solteira ou viúva e que quisesse se casar com ele. Até que um dia um dos filhos conseguiu. Meu tio-avô Pedro Miorin dizia que a mulher era manca e não era muito bonita, mas também ele era cego... Desse segundo casamento nasceu uma filha que puseram o nome de Itália. Depois de crescida essa moça foi morar na cidade de Marília – interior de São Paulo – onde construiu sua própria família e descendentes. Não temos notícias dela, apesar de procurar muito.” Quem contou essa história ao caçula Pedro Miorin foi seu pai Antonio Miorin já no Brasil.

Outra história da cidade de Itatiba, o próprio meu tio-avô Pedro Miorin é quem conta:

“Em Itatiba, morava um homem muito ruim que se chamava “Cuba”. Ninguém gostava dele, pois ele só fazia maldades. Um dia ele morreu, porém como ele era muito ruim, ao invés de enterra-lo, embalsamaram ele e puseram o “Cuba” de pé, na porta da Igreja, para que todos que passassem por ele, pudessem belisca-lo. Quando eu era pequeno, sempre que minha mãe me levava na missa, eu passava por lá e beliscava ele."

Nota explicativa do "Cuba": Meu tio-avô Pedro Miorin, não era de mentir. Algo teria acontecido com esse tal de "Cuba". Depois eu vim a saber que, de fato, havia um boneco na porta da Igreja fazendo propaganda de alguma coisa, ou anunciando as festas juninas, ou outra coisa parecida. Minha bisavó Ângela Doratiotto Miorin, sabendo como seu filho Pedro era teimoso algumas vezes, procurava amedrontá-lo dizendo sobre o "Cuba" e o destino de pessoas ruins e teimosas. Ele, por ser criança, acreditava na existência do "Cuba" e procurava ser melhor filho.

É preciso dizer que a cidade de Itatiba foi construída totalmente incrustada em colinas, chegando a receber o apelido de Princesa da Colina, e posteriormente, por sua beleza natural, ficou sendo conhecida como a “Suissa Paulista”. Foi nessa cidade montanhosa que meu bisavô Antonio Miorin conheceu a minha bisavó Ângela Doratiotto. Casaram-se e tiveram vários filhos. Conheci apenas 11, de seus filhos:

1) Eugênio Miorin, meu avô materno, nascido em Itatiba, aos 17/10/1904, viveu no bairro da Mooca, trabalhou nas fazendas de café, em construção de ferrovias e depois na Congas – Companhia de Gás. Faleceu na Capital de São Paulo aos 30/10/1990.

2) Antonio Pedro Miorin – apelido “Tio Tunin” – Se estabeleceu no Bairro do Tatuapé (Capital de São Paulo) – falecido.

3) Giuseppe Miorin – apelido José ou “Tio Bepe” ou Tio Bipím), morava na cidade de Guarulhos em São Paulo – falecido.

4) Luiz Miorin (este ficou solteiro, tem muitas histórias sobre ele, uma delas é que sempre escondia doces para dar aos sobrinhos quando iam visita-lo – era querido por todos). Morava em Artur Alvim – São Paulo – falecido.

5) Rosa Miorin – apelido “Rosina”. Morava na cidade de Guarulhos (SP), tem uma única filha que fazia panetones na Industrias Bauduco. Faleceu com 100 anos de idade. Sua filha, conhecida pelo apelido de “nininha” chama-se Vitorina.

6) Celeste Miorin (morava no Paraná, depois mudou-se para o Bairro do Ipiranga em São Paulo). Era conhecida pela habilidade no cultivo de plantas e horticultura – Fazia sabão com abacate – falecida.

7) Ricardo Miorin (este era o primogênito) – Falecido.

8) Olívia Miorin (depois de casada ficou sendo Olívia Miorin Bertão) – morava na cidade de Campinas – SP – falecida em idade muito avançada.

9) Lucia Miorin (falecida).

10) Catarina Miorin – apelido “Tia Catina” – falecida.

11) Pedro Miorin - O caçula. Era casado com Geralda, teve dois filhos Pedro e Paulo, e netos. Sua esposa Geralda era filha de italianos também, e por isso lhe chamavam carinhosamente de "Geraldina" e desse modo acabou ficando "Tia Dina". Esse meu tio-avô era de temperamento muito alegre, gostava muito de contar histórias da família e era muito hábil comerciante. Um dia contarei a história dos "irmãos Miorin". Vale muito a pena.

Meu avô Eugênio Miorin, aprendeu muito bem com seu pai e se tornou hábil na arte da poda da videira, o que fazia dar sempre frutos de ótima qualidade. Nas fazendas, colhiam café, plantavam. Muitas vezes eram solicitados em outra fazenda para ajudar na colheita do café e posteriormente do algodão. Quando estavam em Ribeirão Claro – no Estado do Paraná – meu avô Eugênio Miorin, casou-se com uma imigrante italiana do sul da Itália que vivia com sua família pelos lados de Campinas, numa fazenda conhecida como Arraial dos Souza. Ela era da família dos Nadeu (Nadeo, Naddeo) que vinha de Pellezzano, Província de Nápoles.

Dessa região, repleta de feitos heroicos, como já relatado neste blog, vinha um tipo de italiano cheio de fé, com canções e orações naturais de seu dialeto, com uma vontade de trabalhar que fazia admirar. Uma doçura de tratamento que não se encontrava fácil. Assim, meu avô Eugênio Miorin conheceu Rosa Nadeu, e casando-se em Ribeirão Claro, no Estado do Paraná (em 07/05/1932), foram posteriormente morar no Arraial dos Souza.

Rosa Nadeu, nasceu em Arraial dos Souza, Estado de São Paulo, aos 08/10/1910 e faleceu na Capital de São Paulo aos 22/05/1991.

Eugênio Miorin, nasceu em Itatiba, Estado de São Paulo, aos 17/10/1904, tendo falecido na Capital de São Paulo, aos 30/10/1990.

Porém a situação política no Estado de São Paulo estava ruim. Se falava em revolução e guerra. Era a década de 1930. Nova crise chegava. A República Velha vinha perdendo força diante dos acontecimentos anarquistas. Os Estados Brasileiros brigavam entre si, especialmente Minas Gerais e São Paulo. Os imigrantes, como minha família, foram obrigados a construir trincheiras nas terras por onde passariam os soldados. E depois disso foram obrigados a saírem correndo, porque os soldados estavam chegando e lá haveria confusão.

Meu bisavô Antonio Miorin com sua família, após terem aberto no solo as trincheiras, largaram tudo e saíram às pressas rumo à Capital de São Paulo, especialmente para o Bairro da Mooca, que era o local onde havia terras para vender e construir suas casas e para onde estavam indo uma grande parte de imigrantes.

Entre outros pertences, meu bisavô Antonio Miorin, levava nas costas um grande saco de pano, repleto de queijos. Porém ao subir a montanha, uma das pontas escapou de suas mãos, e ele viu muito surpreso e triste, a fileira de queijos rolando montanha abaixo... Isso lhe marcou tanto que durante muito tempo ficou contando e re-contando essa história, dos queijos maravilhosos que ele havia perdido.

Chegando no Bairro da Mooca, comprou um terreno e com seus filhos, Antonio Miorin, construiu uma casa muito especial onde morei por nove anos.

Fonte das fotos: internet, desconheço o autor.
Primeira foto: Foto-pintura dos meus bisavós Antonio Miorin e Ângela Doratiotto.